Le Sacre du Printemps (2013) de Min Kyoung Lee e João dos Santos Martins

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“Le sacre du Primtemps” foi um dos espetáulos integrados no vigésimo aniversário da Culturgest. Tomando com ponto de partida a obra “Le Sacre du Printemps” (1913) de Vaslav Nijinsky, esta performance foi levada a palco pelos coreógrafos e intérpretes Min Kyoung Lee e João dos Santos Martins. O ballet original estreou-se a 29 de Maio de 1913 em Paris, fruto da colaboração de três célebres personalidades: Stravinsky, Nicholas Nijinsky e Roerich. Desde então, foi coreografada mais de trezentas vezes, consagrando-se como a mais emblemática performance artística do século XX.

Com a clara intenção de recriar o clima de agitação e confusão que se instalou na noite de estreia, tratou-se de uma performance com uma componente provocadora e reflexiva.O público foi, por várias vezes, incitado a participar. Frases exclamativas como: “Vaiar”! ou “Gritar”! foram projectadas na parede, convidando a audiência a adoptar uma postura interventiva, numa tentativa de recordar o caos que tomou lugar em 1913. Paralelamente o espetáculo foi marcado pela presença de comentadores que,como se de um evento desportivo se tratasse, faziam o relato ao mesmo tempo que a performance decorria. Este quadro suscitou reacções mais efusivas por parte de alguns espectadores, como: “mas isto é para falar ou para ver o bailado?”. A resposta obtida foi – “a senhora está a repetir o mesmo que há cem anos atrás”. Esta situação relembra-nos a contemporaneidade da discussão sobre os limites e fronteiras das artes.

O local onde toda acção decorreuO parque de estacionamento – fez-me refletir acerca das linhas mestras pelas quais uma performance se deve orientar. O local eleito passa por ser uma antítese daquilo que normalmente se considera ser um palco. Um espaço austero, rodeado de cimento, sem qualquer cenário, e apenas com um pequeno estrado para os artistas discorrerem a sua arte através da energia dos seus corpos. E de corpos se tratou, sem dúvida. Ao longo de quase duas horas o público foi brindado com uma síntese de algumas das coreografias que foram sendo apresentadas ao longo do espaço e do tempo (por exemplo de Berrnard Hourseau, Pina Bausch, Olga Roriz, entre outros). A ausência de um cenário na acepção tradicional do termo é uma evidência de que se tratou de uma apresentação de natureza experimental.

Na celebração do seu centésimo aniversário a temática de dançar até à morte foi, mais uma vez, ilustrada pelos dois bailarinos que chegaram, sem dúvida, ao final da performance completamente exaustos. A quase inexistência de registos visuais sobre a primeira apresentação em Paris levou, inevitavelmente, à existência de múltiplas interpretações da coreografia de Nijinsky consequentemente, a riqueza das interpretações são vastas e diferenciadas entre si. À semelhança da coreografia original, os elementos que foram tão polémicos há cem anos atrás, foram reproduzidos: a componente erótica, com ênfase em passos violentos, movimentos marcados por ângulos retos e contrações corporais. O facto de ser uma sinopse de diversas coreografias, cada uma com as suas disposições particulares, tornou também a apresentação numa miríade de sentimentos.

 

Em conclusão, tratou-se de uma apresentação complexa e exaustiva que, apesar do experimentalismo e de fugir ao ambiente tradicional de um bailado ou um teatro, conseguiu captar a atenção do público presente, e fazê-lo reflectir sobre a natureza da performance artistíca.

Esta entrada foi publicada em Agenda Cultural, Dança por anacpessoa. Ligação permanente.

Sobre anacpessoa

Sou apaixonada pelo campo das Artes e da Cultura.Formei-me em cultura e comunicação e mais recentemente concluí o Mestrado em Ciências da Comunicação (especialização em artes). Interesso-me por jornalismo e comunicação. gestão cultural e artes performativas. Tenho a ambição de seguir um caminho profissional ligado ao jornalismo cultural, sendo que também me interesso pela área de assessoria de imprensa, assessoria de comunicação e produção de conteúdos.

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